O Jason Liu soltou um tweet e depois gravou um vídeo em cima dele: se você quer ter paladar, precisa comer.
Faz sentido demais no meio de tanta coisa gerada por IA. Sai site, app, imagem, texto, o tempo todo. Quase todo mundo produz ou consome. Quase ninguém para pra escolher com cuidado.
Paladar, no que ele fala, não é só "eu acho bonito".
É perceber qualidade. É tentar entender o que outras pessoas vão curtir. E é arriscar algo que não é o caminho óbvio.
O exemplo do restaurante me pegou. Se você é cozinheiro, não dá pra estudar o concorrente só lendo o cardápio ou vendo foto do prato. Tem que comer. Fechar o olho. Sentir o que está diferente.
No software é a mesma preguiça. A gente "pesquisa" o produto do outro assistindo o launch e abrindo uns prints. Isso não treina paladar. Se quer ficar bom com agentes de IA, usa um monte deles. Olhar só pro que você mesmo fez é pouco.
Tem uma história do livro do chá que ele conta.
O mestre Enshū vinha depois do Rikyū. Os alunos elogiavam a coleção dele: tudo lindo, todo mundo admira. Enshū respondeu que era exatamente por isso que ele era pior. O Rikyū amava coisas que só ele amava. O Enshū escolhia o que a maioria já gostava.
Ou seja: acertar o gosto da plateia é uma coisa. Ter coragem de gostar do que só você gosta é outra.
A parte da escola de arte foi a que mais ficou na minha cabeça.
Lá, o paladar dele estava na frente da habilidade. Ele fazia o trabalho, via que estava ruim, e não sabia nomear o problema. A escola deu palavras. Composição. Profundidade. Cor. Forma. Com as palavras, dava pra treinar o que estava falhando.
Com IA isso vira do avesso. Fazer ficou mais barato. Dá pra gerar quase qualquer coisa. Sem vocabulário, o resultado continua ruim, só que agora sai rápido.
Por isso sênior costuma se virar melhor com essas ferramentas do que junior. Não é magia. É conseguir falar de interface, abstração, contrato de API, formato do sistema. Quem tem as palavras consegue pedir melhor. Quem não tem fica no "melhora isso", que quase não ajuda.
Ele usa animação de exemplo. Em vez de "fica melhor", fala de som, de curva de easing. Na cozinha seria nomear acidez, selo da carne, falta de sal, tempo de marinada. Comer ajuda. Nomear o que falta ajuda mais.
Tem um ponto sobre atrito que eu acho importante.
Walter Benjamin já falava que a cópia mecânica tira a "aura" da obra, aquele aqui-e-agora. A câmera tem menos atrito que a pintura. A IA piora isso: te entrega o destino sem as horas prestando atenção no caminho.
O exemplo da bateria: pedir pra IA transcrever a batida e tentar tocar a partir disso. O ouvido ainda importa. O valor nunca foi a partitura pronta. Foi escutar até conseguir escrever. Chamada e resposta. Mudança de tempo. Eu ouvi certo? Copiar era a parte difícil. Agora copiar ficou fácil. Some o atrito que fazia a habilidade parecer sua.
A pergunta chata é: onde eu coloco esse atrito de volta, se eu ainda quero aprender de verdade.
Ele compara com jogo também. Muitos games hoje colocam um minimapa e uma rota pronta até o objetivo. Você só segue a linha e chega. Não precisa olhar o mapa, se perder ou achar alguma coisa no caminho. A descoberta some.
Quem tem paladar, no jeito dele, aceita se perder um pouco. Experimenta a roupa na loja mesmo sem comprar. Sente no corpo. Folheia livro. Escolhe. As palavras ajudam (silhueta, caimento, contraste de cor), mas saber o nome da coisa sem experimentar não adianta.
Se copiar ficou fácil, o gargalo mudou. Fazer ficou mais barato. Notar, curar, gastar tempo consumindo ficaram mais raros.
Quer arte melhor com IA? Olha mais arte. Quer música melhor? Escuta mais música. No fundo quase nunca era sobre o modelo.
A IA encurtou o caminho até a coisa que a gente quer fazer. Nesse atalho, prestar atenção virou opcional. Se perder no caminho também.
Eu fico com a frase dele.
Se quiser ter bom paladar, você precisa comer.